Terça-feira, 30 de Junho de 2009

Morte e Memória




Terminei de ler "Os prazeres e os dias", primeiro livro do então jovem Marcel Proust, que a época tinha 25 anos. O livro é de uma riqueza imensa, fico chocada em apreciar como um jovem tinha naquela época tamanha consiência do que era a vida, as relações afetivas e já o leitmotif daquilo que seria o ápice de sua famosa e grande obra "Em busca do tempo perdido" - a memória.
Comecei a ler este livro não por acaso, encontro-me 'emperrada' na leitura do segundo volume da famosa obra do mesmo autor, "Em Busca do Tempo perdido", ou melhor no segundo volume da série de sete deste, "À Sombra das Raparigas em Flor". A mim me parece que a tecitura da escrita de Proust era mais fluída em sua obra inaugural. "Em busca do Tempo", contém mais de 3.000 páginas e tem uma narrativa mais arrastada, o tempo parece distender-se e arrastar-se mais demoradamente; são páginas e páginas detalhadas e com cuidadosas descrições minuciosas...talvez eu esteja num momento mais fluído de minha vida, buscando leituras mais 'corridas'.
Neste mês sofri uma perda muito grande, meu pai faleceu. Foi de repente, sem doenças e causas maiores que pudessem construir um entorno mais confortável para não ter nos pego tão de surpesa.
Mas ao mesmo tempo me pergunto: quando a morte pode ser mais suave, mais delicada? A morte é sempre uma perda, um sumir,evaporar, ir-se e, nós humanos não sabemos lidar com ela. Proust também fala que "a morte vem em auxiíio dos destinos que tem dificuldade para cumprir-se"; no caso do meu pai e do momento de vida que ele vivia, esta frase faz muito sentido. Mas apesar de dar sentido, nós nunca entendemos e aceitamos....ele einda era jovem, como assim?? Talvez esta seja a questão da vida e de seu livro, buscamos na vida e em seus dias, os prazeres, a fruição deste e não lidar com a cara na parede da dor. Por isso que estamos vivos e somos humanos.....a vida é este calendário de prazeres, mas que agora, para mim, se intercala por dias de choro, e recordações.E creio que talvez tenha que ser assim, afinal acontece para e com todo mundo.
Faço aqui esta conexão com Proust justamente pelo fato da MEMÓRIA. Creio que nada na vida é por acaso, como já dizia nosso amigo Jung, a vida é feita de sincronicidades....comecei a ler este livro pouco antes da morte de meu pai, e creio que terminei este buscando explicações, causar e porquês.....nós sempre estamos buscando nas coisas explicações para os fatos que as abraçam, antecedem ou ocorrem conjuntamente, o ser humano, ou melhor nós, somos assim, buscamos explicações, mesmo para o inefável e inexplicável.

Mas afinal sem poesias ou arabescos, posso dizer que a Morte é mesmo uma merda!
Eu buscava nas palavras escritas conforto para ações não compreendidas, da vida que nos toma uma pessoa, nos deixando, no meu caso, sem uma ascedência. Impressionante como a perda de uma pessoa querida nos torna mais atentos, fiquei pensando em agilizar check-ups, comecei a policiar os cigarros fumados pela minha mãe, observava mais atentamente as pessoas queridas ao meu redor, amigos, namorado, mãe, família.....engraçado, nos tornamos mais zelosos e percebi que devemos nos demorar mais no estar e fazer das coisas.....afinal pra que a pressa e a ansiedade?? Viver e estar em cada ação, seja ela boa ou má, da um sentido e significados à estas e, claro no futuro constroem aquilo pelo qual voltaremos a estas: a MEMÓRIA. O grito, o ser e a essência das coisas que nos ocorrem são elas.
Meu pai foi tudo aquilo que fez, que não fez, tudo o que potencialmente fez-se. E é isto que fica dele, boas memórias, algumas fotos da infância e da juventude e de um presente recente vistas e guardadas numa pasta de elástico e boas, muito boas lembranças. Como diz Prost ficam agora "tributos melancólicos de nosso delirio". Não nos preocupamos mais com a presença da pessoa e como o próprio autor diz a "ausência começa a ter uma corporeidade incrivel, tornando-se uma presença viva e pulsante". "A morte embeleza aquele que abate" é verdade, perdoamos os erros e besteiras feitas em vida e a pessoa vira uma espécie de mártir. É isto, a morte engrandece,a pessoa torna-se um totém, um ícone, uma imagem engastada na memória, e vivemos pela lembrança de suas ações. "A distância embeleza e engrandece, banha o ser ausente numa aura de embelezamento".
Como diz Proust "a ausência é a mais viva, a mais eficaz, a mais indestrutível, a mais fiel presença".
Será mesmo que como disse Shakespeare " a vida seja uma história contada por um idiota, cheia de som e furia, sem significado algum"?
Prefiro acreditar que não, a minha tem som, fúria, lágrimas, sorrisos . O tal Significado é muito raso e para aqueles que buscam finaizinhos felizes. Prefiro me agarrar aos acontecimentos, às "aconteçenças" da vida, alegrias e tristezas, algum siginificado, muita dúvida, e claro, muito memória!
Você ainda esta em mim, agora em outro plano
A memória é sua mais fiel amiga
Saudades

Domingo, 28 de Junho de 2009

Não acredito num deus que não saiba dançar

Publico abaixo, um texto que concebi mês passado e, que faz parte da mostra da Artista Plástica Kika Nicolela em Londres: "SELECTED VIDEOS AND PHOTOS, June 12 – July 08 2009, at the 16mm, London, UK."

Para quem se interessar pelo trabalho da artista e quiser conhecer mais especificamente os vídeos que cito, basta acessar o site da artista: http://www.dilemastudio.com/

O texto também pode ser lido no site na versão em inglês.

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EU NÃO ACREDITO NUM DEUS QUE NÃO SAIBA DANÇAR, Nietzsche

Kika Nicolela é uma artista “plástica-cineasta”. Sua formação é em Cinema, mas seus filmes são sempre expostos no circuito artístico Seus vídeos expostos nesta mostra, tanto do Primeiro quanto do Segundo Programa articulam entre as fronteiras do pictórico e do corpóreo. Em “Passenger”,a mão que segura a câmera e tudo filma é guiada por um olhar desconstrutivo, deformador, desestetizador do olhar claro, do olhar formalista do “bom gosto”; a chuva e a luz incorpóreas são a semântica que rege este borrar de manchas e líquidos. Não temos como não nos lembrar dos artistas Impressionistas. Kika nos faz mergulhar num lago de Ninféas.

Já em “Naked”, o corpo nu dialoga com o concreto corpóreo e rígido da cidade. A pele feita de cimento, o asfalto feito de carne, tudo se interpenetra e nos inebria. O público torna-se privado e o privado público. Nossa experiência como espectadores é regida primordialmente pela sensorialidade, nossos sentidos acordam; buscamos cheiros, e nosso olhar quer raspar o tênue limite da espessura entre o filmado e o sentido

Em “Poema do Êxtase” a referência ao cineasta Bergman é óbvia, vemos Liv Ulmann, jovem e a atual, a questão primordial aqui é o tempo, o tempo congelado, estagnado.

Kika sempre dialoga entre os tênues limites do corpo, do ser e sua alteridade, o alcance de sua identidade no estar e relacionar-se com a natureza, os bichos, os efeitos atmosféricos .

Sua paleta busca sempre este corpo, substantivo e que sempre esta em busca de algo.

“Flux” volta a estas mesmas questões, e o ‘filtro’ avermelhado do vídeo anterior encontra-se aqui também entre nosso olhar e a superfície de Liv ou aqui entre a mulher que dança e flana e o cavalo e a natureza. Muitas referências me vêem a cabeça, o vermelhos de Caravaggio, o modo de filmar de Peter Greenaway, o barroquismo sempre presente: nos gestos do corpo, nas luzes, nos líquidos, etc

“Windmaker” novamente coloca a questão da mulher e a busca de si mesma em meio à natureza, ao vento, a água. O vídeo é um verdadeiro poema azulado, feito de manchas tênues, densas e aquosas. Isso que me seduz na obra de Kika, tudo é sempre um pretexto para a artista alcançar questões pictóricas, que ela revela no ato da edição,seu olhar-pincelada que tudo borra, desloca, deforma, disforma e contorna.

O vento nos pincela também.

Já em “Trópico de Capricórnio”, presente no segundo programa da mostra questões sociais dialogam agora com este corpo-produto. A questão aqui é o corpo como produto e suas metamorfoses.

Seus vídeos nos fazem pensar a respeito do lugar que ocupamos no mundo; que sentido buscamos? Através de corpos que se questionam, que andam que dançam que flanam há uma cabeça que não quer diluir-se, mas que busca neste fluir através dos vídeos um sentido final, que, como já disse Niezstche, dança na superfície terrestre.

Seus vídeos têm tecitura, são feitos como tecidos que pedem para ser tocados; tem textura, relevo, densidade; parecem feitos de pontos-cruz ou bordados. Não apenas o conteúdo que revelam é rico de significados e camadas a serem descobertas como também a estética tal como uma pincelada que são. Podemos perceber uma mesma impressão digital que abarca a todos: o corpo, seus versos, reversos e entrenós, seu relacionar-se com o entorno urbano e orgânico.

Dançar e questionar-se é estar e ser neste mundo que habitamos e nos habita.

Não acredito num Deus e também num homem que não saibam dançar

Daniella Samad

Maio 2009

Terça-feira, 31 de Março de 2009

Hay que endurecer, pero sin perder la ternura, jámas






O filme"Che" de Steven Soderbergh me emocionou. Che, o argentino revolucionário, é retratado fielmente na pele do excelente Benício del Toro. Um dos fatores que muito salva o filme é este ser falado no espanhol e não num inglês "blockbusteriano" que a tudo e todos domina.Portanto o filme pretende-se a um realismo que consegue atingir.
Lembrei-me o tempo todo do filme de Walter Salles, o também excelente "Diários de Motocicleta",de 2004, uma espécie de road movie, que retratava o então jovem Che e suas experiências com aquilo que veio a formatá-lo enquanto o revolucionário intelectual e guerrilheiro que foi dos anos 60. O filme tratava de um Che ainda em formação, e de seu fiel amigo Alberto Granado;há um livro deste "Con el Che por America", contando a aventura desses então dois colegas universitários na travessia do continente sul-americano numa velha motocicleta Norton 500 cc, fabricada em 1939 e apelidada de La Poderosa II , numa viagem que se estendeu de Buenos Aires e Caracas.
Bom, a vida de Che sempre me fascinou, inicialmente por meu pai ser argentino e eu me recordar de minha infância sempre rodeada de livros de Che espalhados pelos sofás e estantes de casa. Meu pai sempre lia sobre aquele que foi seu ícone de adolescência e formação Antí-Peronista, dentre outros livros que iam desde temas como a Guerra da Nicarágua, as Malvinas, e a Segunda Guerra Mundial. Papai sempre foi politizado e até hoje perde-se em suas conversas que mais parecem discuros sobre palanques......
Bom, depois eu acabei tendo uma formação dita à época, de esquerda, estudei no colégio Equipe, que havia sido berço de muitos importantes formadores de opinião, quando, era, nos anos 70 um cursinho fomentador destes cérebros, por lá passaram os Titãs, Sérgio Groismann e outras figuras propositoras que sempre arriavam a bandeira de discuros e debates.
O filme de Walter Salles me fascinou, primeiro pela temática da formação da personalidade deste jovem revolucionário e também por descrever esta em forma de Road Movie, que não sei muito bem porque sempre me fascina; e ainda mais tratando-se sobre duas rodas. Este filme e "Easy Ryder" tem um 'je ne se qua' que me pegam, tavez pelo meu estilo "libertário" de boas idéias na cabeça e aquele bom e velho chavão de colocar o pé na estrada e sentir o vento batendo na cara, sensação que verdadeiramente só pode ser experienciada quando em cima de uma motocicleta (eu tenho uma scooter e posso dizer que esta experiência é mesmo deliciosa).
Não estou querendo afirmar aqui que me tornei uma comunista, claro, sei o lugar de burguesa que ocupo na sociedade...
Bom, neste filme de Sodenbergh (ele tem uma segunda parte que em breve deverá estrear nos cinemas brasileiros); temos um Che que já é pai, que já deixou sua familia e terra e embrenha-se na selva da América Latina arrematando soldados para aquilo que viria a ser a Revolução Comunista que culminou com o que hoje chamamos Cuba.
Temos na tela um Che ainda médico, que quando pode vê-se perdidos em suas leituras de Tolstói e outros grandes clássicos; ou em afogados e angustiantes ataques de asma. Muito engraçado ver o guerrilheiros que este foi, de arma empunhada no meio da selva enquanto no meio de fortes crises de asma....
Temos um Che formando,organizando e liderando o Movimento Guerrilheiro 26 de Julho, M26, o contato com Fidel e Rául Castro e sua escolha no abandono da carreira médica para a carreira de guerrilheiro de arma em punho.
Vemos um Che que queria soldados alfabetizados, pois ele já sabia que uma revolução nao é feita apenas com armas, mas com um povo inteligente e portanto incapaz de ser dominado e feito de bobo.
Provavelmente a segunda parte do filme irá nos mostrar o Che maduro após a rRvolução , espraiando os preceitos comunistas pela America Latina até seu assassinato na Bolivia, em 1967.
Eu fiquei surpresa em perceber que Che foi um dos fomentadores da idéia e certeza de que toda e qualquer mudança só pode ser feita na sociedade com a inteligência e a doação e indentificação com nossos iguais. Estas ainda são nossas verdadeiras armas.Alias, creio que são armas atemporais...
A foto de Korda que já faz parte de nosso inconsciente coletivo ainda é moderna; pois ainda invoca que a solução para o imperialismo autofágico que vivemos neste momento, ainda é a consciência do lugar que ocupamos na sociedade e erradicação da fome, das desigualdades socias e do analfabetismo. Claro que o discurso comunista não cabe mais hoje em nossa sociedade, mas alguns preceitos lançados por este sim.
Somente e, ainda apenas com um povo letrado e ciente do contexto em que se encontra podera haver mudanças. Nossa arma ainda são a nossa capacidade da conversa e do discurso
Como numa cena do filme, fica claro que Che nao estava atrás de luxo e ascensão social, pela obtenção de objetos de luxo , mas apenas pelos ideais de sua Revolução e o estabelecimento de ideais democraáicos. Ele não queria o poder, ao contrário de Fidel (talvez seja está a falácia do seu governo em que Cuba se encontra hoje...), ele queria a Revolução, a democracia e um povo digno. Como ele mesmo disse: "Prefiro morrer de pé do que viver sempre ajoelhado."
Creio que poder escrever em pleno século XXI num blog e poder ser acessada e colocar meus discurso na rede é hoje, uma arma na democratização de nosso saber e na troca deste com outros seres humanos nesta luta por uma sociedade cada vez melhor para todos nós seres humanos.

Portanto companheiros, arriba com lá revolucion!!

Sábado, 14 de Fevereiro de 2009

O Mágico de Oz



Ontem zapeando minha tevê dei de cara com o fantástico "O Mágico de Oz". O filme é de 1939 e parece tão atual.É a velha história de Doroty, interpretada pela prodígio Judy Garland, uma menina de 11 anos que vive com seus tios no Kansas e por uma acidente desdes muito típicos nos dias de hoje, uma tormenta com tufões, ela e seu caozinho vão parar na Cidade das Esmeraldas, matando a bruxa Má do Leste.
Nisso surge uma centena de personagens destas boas histórias infanto-juvenis, gnomos, a fada boa, os sapatinhos de rubis, que ela nunca podera tirar dos pés; terá que seguir pela estrada de pedras amarelas e lá encontrar o tal mágico que ira possibilitar seu retorno à casa e sua família. Pelo caminho Doroty encontra três fiéis escudeiros, o homem de lata que necessita de um Coração, já que seu peito é oco, feito de lata e vazio; o espantalho, que busca um Cérebro e o leão que de rei da selva na tem nada, esta em busca de Coragem.
Bom, daí o trio junto e o fiel Totó enfrentarão a irma da bruxa má do Leste, a do Oeste e seus comparsas até chegarem à Oz. A boa e velha batlaha do herói será traçada e vencida por eles.
O filme é fantástico, o momento que Garland canta na sua fazenda a famosa "Somewhere over the Rainbow" imortalizou-a , assim como o filme. Ela tinha apenas 16 anos na época. O filme é repleto de ótimos "efeitos especiais" ...lembrem-se que era apenas 1939,não existiam rídiculos Hans Donners ou os bons Spielbergs.
O filme é todo filmado em cenário, dá para perceber as flores de plásticoe diversos outros truques moderníssimos à época, mas os 3 atores que representam o leão, o espantalho e o homem de lata tem uma excelente expressão corporal. Todos cantavam, dançavam e interpretavam...creio que hoje não temos mais deste calibre de atores. Apenas bundas e peito chacoalhando em busca de fama.
O que se buscava era coragem, sentimento e pensameto, lemas que hoje todos jogam na lata de lixo.
As pessoas escondem-se por trás de atitudes covardes, usam-se umas as outras e o coração vai para o pé e a racionalidade deu lugar ao desespero satisfeito por tarjas pretas.

Pois é, em algum lugar para além do arco-iris o céu é azul
Com certeza não é aqui.

Terça-feira, 27 de Janeiro de 2009

Plant Your Tree , minha Floresta Virtual

Segunda-feira, 5 de Janeiro de 2009

Feliz Hiato Novo


Ano novo. tudo recomeça....não sei porque mas sempre fico nostálgica e borocochô nesta época do ano. Deve ser a conjunção (astral??) de diversos fatores: meu aniversário que é quase natalino, o natal, o ano novo e este hiato que fica entre as coisas acabadas, ou mal findas do ano, agora já dito passado, para o ano presente. Parece que há no ar uma obrigação de comemorar, de 'ter' que ser feliz, te termos que ansiar por boas cousas vindas, a chamada Esperança, palavra que não gosto muito. Esperar, para uma alma ansiosa é por demais corrosivo. Aíííí, mas que preguiça deste "TER". Prefiro fazer. Mas em épocas de lesera total em que tento retomar o ritmo tão bom de trabalho e otras cositas más que vinham na rebarba do ano findo, melhor ficar quieta na minha. Me dedico aos alunos que aos poucos voltam, e às boas leituras, graças a deus os bons livros sempre me acompanham. Colo abaixo um pequeno e nada prolixo texto publicado hoje no site de José Saramago; identifiquei-me porque "as palavras ditas muito mais que findas, estas ficarão".
Feliz dois mil e nove novo! Axé macacada!
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Balanço

Janeiro 5, 2009 by José Saramago

Valeu a pena? Valeram a pena estes comentários, estas opiniões, estas críticas? Ficou o mundo melhor que antes? E eu, como fiquei? Isso esperava? Satisfeito com o trabalho? Responder “sim” a todas estas perguntas, ou a mesmo só a alguma delas, seria a demonstração clara de uma cegueira mental sem desculpa. E responder com um “não” sem excepções, que poderia ser? Excesso de modéstia? De resignação? Ou apenas a consciência de que qualquer obra humana não passa de uma pálida sombra da obra antes sonhada. Conta-se que Miguel Ângelo, quando terminou o Moisés que se encontra em Roma, na igreja de San Pietro in Vincoli, deu uma martelada no joelho da estátua e gritou: “Fala!” Não será preciso dizer que Moisés não falou. Moisés nunca fala. Também o que neste lugar se escreveu ao longo dos últimos meses não contém mais palavras nem mais eloquentes que as que puderam ser escritas, precisamente essas a quem o autor gostaria de pedir, apenas murmurando, “Falem, por favor, digam-me o que são, para que serviram, se para algo foi”. Calam, não respondem. Que fazer, então? Interrogar as palavras é o destino de quem escreve. Um artigo? Uma crónica? Um livro? Pois seja, já sabemos que Moisés não responderá.

Terça-feira, 16 de Dezembro de 2008

O Eterno, o desejo e o Sangue



Por estes dias terminei de ler dois livros maravilhosos e muito opostos, apesar de similares.....tratam-se de “A eternidade e o desejo", da portuguesa, Inês Pedrosa e de “Sem sangue” do italiano Alessandro Baricco. O primeiro trata da história de uma portuguesa que volta à Bahia de todos os Santos , onde, no passado viveu uma história de amor, que acabou em tragédia, deixando-a cega; ela volta à Salvador, às Igrejas católicas, ela volta ao seu passado, e o livro é o seu relato da experiência de uma mulher que agora vive pelos seus outros sentidos;ela volta entremeando-se pelos Sermões de Padre Antônio Vieira. O livro é de um luxo só. Inês escreve fluindo, seu português é intrincado porem solúvel. Nos embevecemos nesta história que purga a dor e o sofrimento do passado de Clara ( esta personagem cega) ,ao mesmo tempo que nos apresenta uma história de amor, agora no presente desta mesma personagem. Inês nos apresenta o DESEJO como algo diretamente ligado à vivência da busca daquilo que torna-se eterno em nossa mente assim como em nosso corpo; vivências que nos marcam para sempre, deixando cicatrizes, rugas em nossas histórias.

No outro livro, é o reencontro da menina que teve sua família assassinada com seu “carrasco”. Anos depois. O livro é curto, tem 80 páginas. Suguei-o numa tacada só, tem um rítmo inebriante, como o outro, porém este é frenético, cheio de dores ,de lembranças da guerra e sem poesia nenhuma. O de Ines, é tão viciante quanto ,porém situado num cenário exótico e sensual. Um nos fala do amor e suas sinestesias num contexto “caliente” dos trópicos e o outro da purgação da dor pelo enamoramento através do carrasco.

Um trecho do de Inês: “Os teus filmes congelam a vida, tanto como as minhas palavras. Eu não posso ver os teus filmes, e tu amas-me em silêncio. Assim duraremos..... No Brasil, território de afetos exacerbados, o que primeiro se aprende é o desprendimento , ou o dom de amar esquecidamente.....quantas pessoas pelas quais me apaixonei consegui amar?”

Agora, um trecho do livro de Baricco: “por mais compreensível que seja a vida, provavelmente nós a cruzamos com o único desejo de retornar ao inferno que nos gerou, e de viver ali, ao lado de quem, uma vez, nos salvou, daquele inferno. Tentou pensar de onde vinha aquela absurda fidelidade ao horror, mas descobriu não ter resposta. Compreendia somente que nada pede mais forte do que o instinto de voltar para lá onde nos despedaçaram, e de repetir aquele instante por anos. Pensando apenas que quem nos salvou uma vez pode depois nos salvar para sempre. Num longo inferno idêntico áquele de onde viemos. Mas inesperadamente clemente. E sem sangue.”

Foi ai que encontrei o ponto de convergência de ambos os livros: ambos falam da dor extrema da perda de seres amados e a volta que sevemos fazer à estes em dado estado da vida. Ou melhor, nunca voltamos à eles porque nunca os abandonamos ou os superamos, eles andam conosco vida adentro, de mãos dadas, e vesti-los, encará-los de frente as vezes é a única maneira de vivermos. Temos de dar às mãos ao feio, ao horror e à dor que nos forjou. Do contrário nunca poderemos seguir adiante. É uma purgação que se faz no dia a dia. A catarse através pelo lado escuro, cego e macabro da vida

De mãos dadas com o desejo e com o horror, cega e eternamente, sem sangue, mas adiante, sempre.

Domingo, 7 de Dezembro de 2008

Exposições




Neste final de semana mergulhei nalgumas exposições; umas muito boas e outras nem tanto.

A 28ª Bienal de SP nem vale a pena comentar...mas vamos lá: fez me sentir culpada de ser uma profissional da área das artes e perceber como deixou-se acontecer uma mostra tão frustante como esta. Impressionante. No andar térreo alguns vídeos datados de Godard e outros; que para tanto não precisavam ser exibidos sob o título de uma Bienal Internacional, mas caberiam muito bem numa mostra de filmes temáticos. Indo ao segundo andar, nos deparamos com o já 'famoso' vazio; onde tentou-se recheá-lo de todo um conteúdo falsamente conceitual, passando pela discussão da arquitetura modernista de Niemeyer, patati patatá....aí, ai, muito blá blá blá para nenhum conteúdo! Trabalhei neste espaço durante duas Bienais, em 1994, a Internacional e a outra, intitulada Bienal Brasil Século XX e garanto que não é necesásria uma Bienal, uma instituição abdicar de instalar obras no andar para estabelecerem-se questionamentos estéticos e / ou filosóficos; e vejam bem que àquela época quem era o presidente da Fundação é nosso hoje tão famoso Edemar Cid....Havia todo um peso da curadoria de Aguilar, assim como o principal: OBRAS. Foi lá que nasceu o famoso "espaço climatizado", muito presente em posteriores Bienais. Mas desta vez, a Curadoria relamente deixou a mão escapar. Num terceiro andar todas as obras se confundem numa espécie de ‘mobiliário’ em compensado de madeira que parece uniformizar tudo, mimetizando as obras e tornando-as neutras umas às outras. Salvam-se alguns vídeos(antiguésimos), de Marina Abramovic e as lindas gravuras em metal de Leya Mira Brander e um vídeo de uma artista finlandesa. É isto a Bienal. Ou melhor, foi isto, ainda bem que acabou. Mas que vergonha Einnn Dona Fundação Bienal! Podiam ter pulado esta edição e feito uma coisa direito. Porque eu como profissional da área faço bem feito ou não faço. Fico pensando nos estrangeiros que fretaram vôos e vôos para virem até aqui checar esta BIENAL...do vazio. Ficaram de queixo caído e a única coisa que lhes restou foi literalmente escorregar pelo lúdico tobogã do artista belga Carsten Höller , que leva diretamente à frustante saída da mostra! Será que uma mostra que sempre se enquadrou no no topo da agenda mundial de acontecimentos das artes plásticas merece acabar numa escorregade-la ??

Depois decidi-me por ir ao SESC Pinheiros, onde se encontra uma maravilhosa mostra do teatrólogo e multímidia Robert Wilson, mas comumente conhecido como BOB WILSON. Fantástica, recomendo. Feliz perceber o perfeito casamento da Arte com a Tecnologia ( o que também pude aferir na também excelente mostra em cartaz no Itaucultural "CINEMA SIM"). Vejam ambas!!

Na mostra de Wilson, em cartaz, até o inicio de Fevereiro, intitulada “VOOM PORTRAITS” são expostos nos 3 andares do prédio, vídeo-retratos de alta definição, um feliz encontro entre a fotografia, o filme, a literatura e a música. Portraits em televisores de altíssima definilção, onde alguns atores, tais como Brad Pitt, Isabella Rosselini e Wynona Ryder, e outras personalidades do mundo POP, tais como a artista burlesca Dita Von Tesse, posam sob precisa direção de Wilson; cada um na pele de uma ‘personagem’ e desenvolvem no deocrorrer do tempo da filmagem mínimos e sutis movimentos, gestos cuidadosamente coreografados. Fiquei de boquiaberta. Estabelece-se um delicado bate papo com os retratos de Andy Warhol, as performances do também performático Matthew Barney (marido da ótima Björk), e uma mescla de outros tantos cineastas interessantes, Tim Burton, etc. A luz é sempre uma coadjuvante dos ‘retratos’. Algumas poucas manipulações são aplicadas sobre os vídeos que são sempre lupados e com 'trilhas musicais' compostas por Peter Cerone, Michael Galasso e Glen Gould só contribuem para a melhor qualidades destas peças. Wilson, como ninguém soube combinar o movimento, a iluminação, a imagem em alta deinilção e um tema mais que clássico e recorrente da história da arte, o Retrato e, trazê-lo para uma discussão contemporânea, . E isto tudo sem perder conteúdo. Vejam!!

De lá fui ao Instituto Tomie Ohtake conferir a mostra em homenagem a José Saramago. O material traz obras inéditas, manuscritos, notas pessoais, primeiras edições, traduções, fotografias, vídeos e gravações originais que traçam a vida literária do escritor.

A mostra é intitulada “A consistência dos Sonhos”. Mas nossa, como é difícil transpor toda uma vida dedicada a literatura, à escrita , a solidão das páginas em branco e transpo-lá ao espaço expositivos de um ‘museu’. A literatura não se presta facilmente à ser ‘vista’ como um objeto museulógico. A coisa toda ficou muito didática e tediosa, sai de lá com dor na coluna de tanto que me debruçava sobre as vitrines que exibiam fotos e seus manuscristo. Saramago é um escritor maravilhoso mas, a exposição pareceu-lhe meter correntes nos pés. Excetuando-se as duas últimas salas grandes em que duas obras de um mesmo artista, articulam no espaço, fazendo projeções com palavras em cima de programas de softwares, se salvam as entrevistas em vídeos, onde podemos ver o próprio ganhador do Prêmio Nobel falando por si mesmo e não por uma enfadonha catalogação documental.

Hoje para acabar minha esbaldação de arte, fui à Pinacoteca do Estado , checar, já que era o último dia da mostra “Eliseu Visconti: Arte e Desig”, deste que foi nosso pintor que, como ninguém soube juntar a chamada Grande Arte com as Artes Decorativas do começo do século XX. A mostra era divina, exibindo os estudos preparatórios para a Boca de Cena do Teatro Municiapal do Rio de Janeiro a,ssim como seus cartazes, porcelanas, estudos de pinturas e volutas Arte Nouveau. Ele era nosso verdadeiro Klimt. Quem puder sugiro que quando forem ao RJ chequem com os próprio olhos a decoração do teto do Teatro Municipal assim como o pano de boca de cena. Viagei na mostra e sai de lá me sentindo numa Paris da Belle Époque!!

Muito bem para quem começou o final de semana escorregando por um tobogã à lá Playcenter num daqueles que já foi o local de grandes Bienais.

Deus do Céu. Ainda bem que Wilson e Visconti me salvaram!

Quinta-feira, 4 de Dezembro de 2008

Queime depois de ler


O novo filme dos irmãos Coen, “Queime depois de ler”, em oposição ao sério, “Onde os Fracos não tem vez”,em que Javier Barden faz o papel de uma assassino frio e calculista numa espécie de faroeste dos dias de hoje ,é uma verdadeira ‘comédia de erros’. Todos os personagens são anti-personagens, anti- heróis. Tropeçam, caem, erram, dão tiros e matam por engano, não sabem chantagear. A trama, se é que assim pode-se chamar, trata do nada sobre o nada; ou seja, uma trama que se desenrola em cima da importância de um falso ‘conteúdo’. Na verdade é um filme inteligente que nos mostra toda uma rede de personagens imbelicilizados, um verdadeiro anti-filme.

Osbourne Cox (John Malkovich) é um analista que trabalha para a CIA. Ao chegar em uma reunião ultra-secreta ele descobre que foi demitido. Revoltado, ele resolve se dedicar à bebida e a escrever um livro de memórias. Katie (Tilda Swinton), sua esposa, fica espantada ao saber da demissão de Osbourne, mas logo deixa o assunto de lado por estar mais interessada em Harry Pfarrer (George Clooney), um investigador federal casado que é também seu amante. Paralelamente Linda Litzke (Frances McDormand), funcionária de uma rede de academias, faz planos para uma grande cirurgia plástica que deseja realizar. Ela tem em Chad Feldheimer (Brad Pitt), um professor da academia, seu melhor amigo. Até que um dia um CD perdido cai nas mãos de Linda e Chad, entregue por um faxineiro da academia. Ao perceberem que se trata de material confidencial, eles ligam para Osbourne Cox tentando conseguir dinheiro para evitar que seu conteúdo seja divulgado.

Brad Pitt esta hilário, um verdadeiro personal trainner idiota, que vive com uma garrafinha de água, mastigando chicletes e que não larga seus fones do iPOD, e parece nunca ter abandonado a mamadeira. MacDormand esta excelente no papel de uma mulher complexada em busca de ‘seu novo eu’, eternamente insatisfeita com seu corpo vive na internet à caça do homem perfeito. George Clooney é um amante idiota; um cafajeste que come toda e qualquer mulher que aparece na sua frente e jura falsas verdades de amor. Malkovitch talvez seja o personagem mais ‘sério’ do filme. Vive com os nervos à flor da pele.

O filme conta a história de pessoas incrivelmente cretinas que fazem coisas extremamente estúpidas relacionadas à sexo e a vida em si. O que torna tudo mais interessante é que não se tratam de políticos, mas de pessoas normais, como todas nós....

Não consegui me segurar de tanto rir. O filme fala de anti -espiões, é uma verdadeira homenagem aos filmes de espionagem, onde pululam chantagens,heróis gostosões e tramas diabólicas e pitorescas.

Uma verdadeira comedia de humor negro.

Nos faz pensar a respeito das estupidez humana e perceber de verdade que estes seres banais e idiotizados estão muito presentes em nossas vidinhas cotidianas.....

Segunda-feira, 17 de Novembro de 2008

Vicky Cristina Londres....


Todo mundo tem comentado comigo que adorou o filme, que ele é leve, divertido.

Mas eu não gostei.

Achei tão morninho. Um romance alternativo americaninho qualquer é a mesma coisa.


Adoro Woody Allen mas, apesar da linda fotografia, apesar dos lindos travellings a la Hitchcock, apesar do lindo elenco, apesar do Javier Bardem, aí, aií....apesar de Gaudí, apesar de Miró, apesar das lindas locações, e apesar da ótima trilha sonora e do violão de Pacco de Lucia, o filme não decola.

Onde esta o bom e velho humor irônico de Allen?

Onde esta a tragicomédia?

O filme não tem punch, o rítmo engasga; peguei-me olhando no relógio vários momentos.

Onde está o bom roteiro dos tão ótimos “Match Point, “O sonho de Cassandra”, “Tudo o que você queria sabe sobre sexo mas tinha medo de perguntar”; os amores de “Hanna e suas imrãs”? Onde esta a ironia judaica? Onde esta o meu esborrachar-me de rir ? Onde esta a trama inteligente e rápida?


Allen, ficou comum; até o central triângulo amoroso torna-se morno apesar do sex appeal de Barden e Cruz.

O beijo “gay’ que acontece entre Cruz e aquela loira sem graça- que acha que é a reeencarnação da Marylin Monroe- a tal da Scarlett (que não tem um décimo da força da mesma personagem de "O vento Levou..."), é uma vergonha de dar dó....aliás, Allen, deve ser por isso que ela é sua nova atriz-ícone, é gelada que só ela! E ainda por cima anda com os pés virados para dentro, prestem atenção quando Allen foca em seu andar...tadinha nem as botinhas ortopédicas a moça usou...

Bom, voltando do meu devaneio,,,,


Almodóvar já fimou isto tão melhor. Allen deve deter-se à Inglaterra, seu filme em solo espanhol não tem nada de caliente. Penelope Cruz é uma péssima histérica que até Freud riria.

Deveria ser Vicky Cristina, Londres.

O Fog lhe combinaria melhor.

Deixem Bardem e Cruz nas mãos de Almodóvar e dos irmãos Cohen que estes os sabem aproveitar.

Allen não tem ginga, não sabe bailar o flamenco

Volte aos pubs londrinos e ao tipos americanos, estes você sabe filmar muito bem !
Ou coma muita paella!