Sou uma balzaquiana da América do Sul. Escrevo e tenho muito a dizer: sou inquieta, palavras transbordam de mim e resolvi compartilhá-las com amigos e outros (ainda não amigos), nesta enorme rede que é o mundo internáutico. A vida tá sempre em movimento e a gente muda todos os dias; deixando de ser quem éramos, e nos transformando em quem somos...Sejam bem-vindos ao meu mundinho das palavras and express yourself beibes!
Todo mundo tem comentado comigo que adorou o filme, que ele é leve, divertido.
Mas eu não gostei.
Achei tão morninho. Um romance alternativo americaninho qualquer é a mesma coisa.
Adoro Woody Allen mas, apesarda linda fotografia, apesar dos lindos travellings a la Hitchcock, apesar do lindo elenco, apesar do Javier Bardem, aí, aií....apesar de Gaudí, apesar de Miró, apesar das lindas locações, e apesar da ótima trilha sonora e do violão de Pacco de Lucia, o filme não decola.
Onde esta o bom e velho humor irônico de Allen?
Onde esta a tragicomédia?
O filme não tem punch, o rítmo engasga; peguei-me olhando no relógio vários momentos.
Onde está o bom roteiro dos tão ótimos “Match Point, “O sonho de Cassandra”, “Tudo o que você queria sabe sobre sexo mas tinha medo de perguntar”; os amores de “Hanna e suas imrãs”? Onde esta a ironia judaica? Onde esta o meu esborrachar-me de rir ? Onde esta a trama inteligente e rápida?
Allen, ficou comum; até o central triângulo amoroso torna-se morno apesar do sex appeal de Barden e Cruz.
O beijo “gay’ que acontece entre Cruz e aquela loira sem graça- que acha que é a reeencarnação da Marylin Monroe- a tal da Scarlett (que não tem um décimo da força da mesma personagem de "O vento Levou..."), é uma vergonha de dar dó....aliás, Allen, deve ser por isso que ela é sua nova atriz-ícone, é gelada que só ela! E ainda por cima anda com os pés virados para dentro, prestem atenção quando Allen foca em seu andar...tadinha nem as botinhas ortopédicas a moça usou...
Bom, voltando do meu devaneio,,,,
Almodóvar já fimou isto tão melhor. Allen deve deter-se à Inglaterra, seu filme em solo espanhol não tem nada de caliente. Penelope Cruz é uma péssima histérica que até Freud riria.
Deveria ser Vicky Cristina, Londres.
O Fog lhe combinaria melhor.
Deixem Bardem e Cruz nas mãos de Almodóvar e dos irmãos Cohen que estes os sabem aproveitar.
Allen não tem ginga, não sabe bailar o flamenco
Volte aos pubs londrinos e ao tipos americanos, estes você sabe filmar muito bem !
Ou coma muita paella!
Vi neste final de semana o excelente filme “O Silêncio de Lorna” , de Luc Dardenne e Jean-Pierre Dardenne, ou mais comumente conhecidos como os irmãos Dardenne. Creio que estes ficarão na história como os também ótimos irmãos Tavianni e os Cohen.
Lorna (Arta Dobroshi), deseja se tornar sócia em uma lanchonete, juntamente com seu namorado belga. Para tanto ela aceita se casar com Claudy (Jérémie Renier), apenas para assim adquirir a nacionalidade belga. Após algum tempo ela é obrigada a mais uma vez se casar, desta vez com um mafioso russo, para obter sua cidadania. Só que, para que este novo casamento seja possível, Lorna precisa antes matar Claudy.
Ano passado vi da mesma dupla “A criança”.
Ambos filmes estão inseridos no debate dos novos paradigmas urbano-sociais. Tratam das relações humanas, do urbano, das novas tragédias sociais: imigração, aborto, paternidade,tráfico de crianças, vistos,e o dinheiro, sempre o dinheiro! Infatigável preocupação do ser humano de ter uma identidade, uma nacionalidade. Neste que vi ontem, a questão dos chamados “green cards”, a obtenção da nacionalidade, em questão, a belga. Lorna é aquela que busca e alcança esta nacionalidade e também serve como moeda de troca para outros a obterem. As línguas faladas no filme anternam-se entre o francês (belga) e o albanês. Muito bom ver produções em que o inglês não é mais a língua central. O novo e inteligente filme trata dos cidadãos da Europa central e sua busca incansável de obter direitos igualitários para tornarem-se cidadãos de outros países. Talvez este seja um tema central a ser tratado pelos governantes atuais, entre eles,Obama, visto que ele, em sua condição negra e de ‘linhagem’ africana deve ter tido pais que passaram pelos mesmos ‘entraves’ imigratórios.... Estes seres humanos querem poder ter o direito a tornarem-se cidadãos europeus. Fugir de seus países dilacerados pelas guerras civis.
No outro excelente filme da mesma dupla, que tive a oportunidad de ver ano passado no Cinesesc, o mesmo ator loiro, também presente em “Lorna’ como o marido junkie, era o pai de um bebê, e via-se metido na venda e tráfico de crianças Lá o bebe era O estorvo, a morte,e aqui, em Lorna, este a ‘salva’ . Lorna salva-se pela sua ‘gravidez’. salva-se por descobrir algum vinculo no mundo cão em que vive; onde as pessoas são sempre peças de um jogo de "War" e usadas como utensílios descartáveis.
Os Dardenne conseguem criar como ninguém um diálogo contemporâneoa entre seus filmes; estando sempre na linha de ponto das questões pulsantes do nosso louco e descriminatório mundinho cão. Este ganhou o prêmio em Cannes pelo seu excelente roteiro. Arta,a iniciante atriz albansesa, é ótima, seus traços em muito me lembraram uma jovem Isabelle Adjani. O filme tem ‘punch’, a montagem é dinâmica e pulsante e nos deixa cativos desta frenética história.
Recomendo também o excelente "A Criança", de 2005, em que Sonia (Débora François) é uma jovem de 18 anos, que acabou de dar à luz a um menino. Bruno (Jérémie Renier), o pai, com 20 anos de idade vive de pequenos roubos cometidos por ele e seus comparsas adolescentes. Os dois vêem de maneira bem diferente o significado da chegada desta criança, sendo que os atos de Bruno em relação ao filho colocarão o casal diante de sérios dilemas sobre suas existências. Foi o ganhados da palma de ouro de canes neste mesmo ano
Há ainda o primeiro filme da dupla, que ainda não vi, mas que também deve seguir a ótima linhagem, chama-se "Rosetta", de 1999. Vou á caça na videolocadora....e viva a Bélgica!
Malcom X apercebeu-se que discursar tanto em praça pública valeu a pena.
Michael Jackson deve estar envergonhado de ter-se desbotado.
Billie Holiday não mais choraminga sozinha defronte à “Blue Moon”
Nina Simone ergue várias taças, brindando-o
Pelé faz um gol
Gilberto Gil congratula-se de um dia ter estado ali, no poder
Daiane dos Santos faz um duplo mortal carpado
Stevie Wonder encherga luz ao fim do túnel
Mandela já pode deixar a terra feliz de um de seus ter chegado mais longe que ele
Ray Charles compõe um novo som
Todos sorriem
Obama esta lá. Obama sorri.
De alto do pódio. Agora, não mais contra. Mas ,no poder. Espero que a luz esteja nas suas mãos e os EUA possam ser um país com menos segregação racial e impecilhos aos imigrantes e tudo o mais que seu plano de governo propõe. E que o mundo beba do mesmo vinho.
Que a escravidão extinga-se no mundo
Parabéns aos negros.
Parabéns África
E ainda por cima o cara é um ‘negro gato de arrepiar”, espero que da melhor estirpe
Acabei de ler o romance "A Morte em Veneza". Há pouco fiz aqui um texto sobre o filme de Luchino Visconti, de mesmo título. O filme não perde para o livro e vice-versa. É raro isto acontecer; lembro-me assim rapidamente da adaptação cinematográfica do também excelente "O Nome da Rosa" de Umberto Eco. As palavras de Thomas Mann tomam formas corpóreas no filme de Visconti. As roupas são aquelas mesmas vistas no filme,o cenário é aquele, os sentimentos são aqueles, o arrebatamento do belo é aquele de Visconti. Bom, sou suspeita, pois Visconti é um de meus preferidos; e agora, Mann também o é. Suas palavras deslizam em paisagens que são as de Visconti. Aschenbach vai a Veneza sedento para a distância,com saudade para a distância e para a novidade. Ele quer isolar-se do mundo civilizado, do trabalho e da rotina. Mas não esperava enamorar-se pelo belo; vai em busca da solidão Aschenbach morre contamplando o belo. Quem pode querer mais do que isso? Deitado num fim de tarde, observando a praia calma, o suave ronronar das ondas no mar,num por de sol, envenenar-se e esvair-se na contemplação do sublime e inalcansável.
Agora vou-me dedicar a outro Mann, "A Montanha Mágica". Tantas vezes começado e nunca adiante. Espero surpreender-me novamente.
Neste final de semana tive a oportunidade de ver o ótimo “Da vida das Marionetes” de Ingmar Bergman. Trata-se de um filme dos anos 80 em que questões básicas do ser humano são colocadas em questão. Como em seu fantástico “Sétimo Selo” em que o homem joga xadrez com a morte, este de 1956, aqui esta também se faz muito presente, tal como uma personagem.
Em “Marionetes” um casal em crise é o ponto central; Peter e Katarina. Peter vai ao psicanalista, pois sonha que matou a esposa.
Eros e Tanatos, mais uma vez. A atração que temos pela morte. Matamos aquilo que amamos? Ele pensa em matá-la, mas não consegue, acaba por matar uma prostituta; tomando outra pelo objeto de seu amor/ ódio. A catarse realiza-se na morte não deo objeto amado mas de seu espelhamento invertido na sociedade; na puta que não é a mulher ‘pura’.
Katarina tem um amigo gay- TIM, este afirma que fidelidade não existe; se diz “viciado em intimidade, mas o que é a intimidade? É sempre a mesma coisa, o corpo se torna um obstáculo. Depois a alma.
Logo se esta numa confusão de sentimentos, fantasias e acordos.” Ele se olha no espelho e fala do envelhecimento, das rugas, das marcas da vida. Diz “que não entende a preocupação do ser humano com o tempo, porque alguns especialistas dizem que o tempo não existe.Você se transforma nisso. Toda discussão sobre intimidade é um sonho. Brutalidade e obscenidade. Prazer, sexualidade, horror e obscenidade. Ele precisa disso para viver.” Mas será que só ele, na sua condição homossexual ou todos nós também?? “Alguém me matará, mas isto é um pensamento excitante. Há certos poderes que não consigo controlar...Talvez seja este o paradigma entre a morte e a vida. A dor e o prazer, o arquétipo central do ser humano, a vida o trabalho, o sexo, as pílulas, são poderes secretos. Mas será que eles ajudam? Talvez seja este o processo do envelhecimento, a putrefação.’ Chego a conclusão que esta mistura de carne, sangue, nervos e pedaços de ossos contem duas totalmente incompatíveis....duas pessoas incompatíveis . Todos nos somos dois, todos nos somos morte e vida, luxuria e caos.Quando chegamos ao orgasmo nosso nariz esta tanto na merda que quase sufocamos”
Ao fim do filme quando Peter comete o assassinato da prostituta e vai preso, uma voz em off diz: “Só possuímos e temos controle daqueles que matamos....só aquele que se mata tem controle sobre si próprio.”
É isto a vida, pulsão e prazer pela morte também?? Somos então apenas marionetes nas mãos de algo maior ; repetimos padrões, “patterns” comportamentais que oscilam do prazer pela dor e da dor pelo prazer?
Por estes dias, uma querida amiga, mandou-me o convite para a Mostra SESC de Artes; dentro deste uma especifica, de Literatura pelo celular; do qual inscrevi-me e há cerca de uma semana venho recebendo short-cuts, pequenos contos, em meu aparelho que alimentam meu dia-a-dia de certa poesia em tom de rima curta. Publico abaixo alguns que me surpreenderam e fizeram aspirar gotícolas do sublime em meu corriqueiro cotidiano:
"Esta tatuagem vai doer? Só no divórcio." Reinaldo Martins
"Tocou o sax antes de puxar a corda no pescoço. No espelho, o bilhete: aqui jazz." Raimundo Carrero
"Bebeu, chorou, riu, errou, cresceu, amou,feriu, bateu, apanhou. Faria tudo de novo." Pedro Biondi
"Palavra ou mágica? Só uma opção. escolheu. Errado: Não era palavra. Mas escritor sempre opta pela palavra." Moacyr Scliar.
" O enfermeiro estava no elevador com o cadaver na maca. Acabou a luz. Ele acendeu um cigarro e ofereceu ao morto." Marcelo Rubens Paiva
"Mãe, Alice me bateu. Não liga, essa boneca é muito ignorante." Livia Garcia-Roza.
"38mm. Estourou o céu da boca. Ele escutou a sua prece." Luciana Miranda Pennah
"50 anos de hoje em diante só faço o que quero. É cedo para isso, disse minha mãe, que nunca se deu ao luxo." Ivana Arruda Leite.
"Amor deles água de barrela: ele gostava do Rimbaud; ela do Rambo." Evandro Affonso Ferreira
Nada como recordar um bom e velho tango, que já é quase um cult; minha veia Argentina no momento pulsa pelo sempre caliente e passional "Naranjo em Flor", de 1944, do compositor Homero Expósito, sempre muito bem interpretado por Astor Piazolla e numa versão mais recente pelo grupo Bajofondo Tango Club; abaixo a delicada letra para aqueles que, como eu, gostam de bailar com cravos entre os dentes...
"Naranjo em flor"
Era mas blanda que el agua, que el agua blanda, era mas fresca que el rio, naranjo en floor...
Y en esa calle de estio, calle perdida, dejo un pedazo de vida y se marcho...
Primero hay que saber sufrir, despues amar, despues partir y al fin andar sin pensamiento... Perfume de naranjo en flor, promesas vanas de un amor que se escaparon en el viento...
Despues, que importa el despues? Toda mi vida es el ayer que me detiene en el pasado, eterna y vieja juventud que me ha dejado acobardado como un pajaro sin luz.
Que le habran hecho mis manos? Que le habran hecho para dejarme en el pecho tanto dolor?
Dolor de vieja arboleda, cancion de esquina con un pedazo de vida, naranjo en flor...
Revi um clássico da cinematográfica Viscontiana: “Morte em Veneza”. Uma produção apuradíssima e bem tratada em seus mais delicados detalhes. Visconti filmou como ninguém Thomas Mann, num clássico da literatura em que um compositor alemão viaja para Veneza após recomendações médicas; sua saúde é muito frágil e ele vai ao lindo balneário do Hotel Lido tentar recuperar-se. Mas eis que Gustave, o compositor, “apaixona-se” pelo efebo Tadzio; um menino adolescente que lá encontra-se com suas irmãs e mãe, a linda e estilosa, Silvana Mangano. O filme é maravilhosamente filmado naqueles rápidos closes que só Visconti sabe fazer. O figurino é divino, apaixonei-me por todos aqueles chapéus agigantados e vestidos dos 1900 ; a cidade que esta afundando não poderia ter sido melhor cenário para esta ‘tragédia’. O homem arrebatado pela beleza apolínea do menino semi- Deus. O encontro do compositor com a obra de arte perfeita embalada pelos acordes da 5ª sinfonia de Mahler. É mesmo a definição do sublime. A beleza de Tadzio atraí e oprime Gustave. Eros e Tanatos, aquilo que o salva ao mesmo tempo vai corroendo-o, sugando suas forças e na metáfora da cidade empesteada pelos ares mediterrâneos, o chamado siroco, Gustave embeveda-se pela beleza de Tadzio que o arrebata e ao mesmo tempo o faz alcançar as esferas do sublime. Este filme sempre foi tratado como detentor de uma temática homossexual, mas ao meu ver, não é nada disso; muito fácil taxá-lo como tal.... ele é o encontro do homem com a beleza, a beleza da juventude, da perfeição, dos traços andróginos de Tadzio, que lembrou-me muito os rostos das muitas “Monalisas” de Da Vinci, que no fundo, são sempre uma só. Visconti, expõe este cânone, esta perfeição; e o filme trata do arrebatamento, do apaixonamento de nós seres humanos pelo Belo. Afinal o que nos salva ao mesmo tempo nos mata, não? Embriagar-se do belo é também deixar-se dominar, afogar e inundar-se por este. ] Gustave morre ao final, como o titulo do filme já diz, mas sua morte é asfixiante, sofrida, dolorida, ele deixou-se afogar pelas garras do belo; não o belo narcísico que afoga-se em si mesmo; mas pela descoberta do Belo no fora de nós mesmos e na impossibilidade deste ser possuído, amado e guardado. Enquanto Gustave é frágil, definha e está na meia idade, Tadzio, encontra-se no auge, na puberdade, com sua tez plácida, corpórea como um mármore puro e seus cabelos loiros e vastos - Gustave morre pelo belo. Trata-se do amor platônico, por algo que ele não pode alcançar, tocar mas que o corrompe ao mesmo tempo que seduz Retiro este magnifíco trecho do original de Thomas Mann: "Ele era mais bonito do que as palavras podiam exprimir, e Aschenbach (o homem de meia-idade) sentiu dolorosamente, como tantas vezes antes, que a linguagem pode apenas louvar, mas não reproduzir, a beleza que toca os sentidos. (...) Tadzio (o rapaz polaco) sorriu; (...) E recostando-se, com os braços caídos, transbordando de emoção, tremendo repetidamente, segredou a formulação tradicional do desejo - impossível, absurda, abjeta..." É o encontro do belo ideal, que Gustave buscava alcança em sua arte, que materializa-se na pessoa de Tadzio. Gustave tenta rejuvenescer, mas a artificialidade perde para o poder do belo angelical, longilíneo, puro e espontâneo. Mas a vida é assim, apaixonamo-nos pelo amor ou pela pessoa amada? A gente se embeveda pelo objeto amado ou pelo enamoramento em si?? O belo e o amor nos encapsulam e nos devoram.
A perfeição o mata. Este é o arrebatamento maior da vida.
Fui ver “Linha de Passe” de Walter Salles e Daniela Thomas.
De inicio saí reclamando que o filme se pretendia “apologístico” em relação à já de fato conhecida pobreza brasileira em contraponto à vida dos ricos e classe média. Achei que o filme não tinha “história” e perdia em qualidade em relação ao ótimo “Central do Brasil’, do mesmo diretor.
Mas hoje me peguei andando com o cachorro e refletindo sobre o filme.
Uma história simples, a doméstica Cleuza, mãe de quatro filhos ( grávida do 5º), mora na zona periférica de São Paulo. Seus quatro filhos travam verdadeiras batalhas heróicas pela sobrevivência e dignidade no decorrer do filme: O menor, Reginaldo, sonha em conhecer o pai, andando de ônibus delira em pensar que qualquer um dos motoristas destes pode ser o pai . Seu sonho é este: ser motorista de ônibus: outro, Dênis, é moto-boy , enfrenta diariamente aquela luta já conhecida por todos nós destes meninos que correm contra o tempo no trânsito alucinado e colocam suas vidas em risco. Dinho, é evangélico e, Dario sonha em poder ter uma chance de ser jogador de futebol.
Talvez seja isto que não percebi: o filme não tem uma História, pois afinal que história a nossa sociedade brasileira pode oferecer a estas pessoas às margens da sociedade? Que futuro, que oportunidades, que chances? Estes indivíduos são sempre tomados como assaltantes, bandidos, “negros” e seres inferiores. Nós os vemos assim, e assim os tachamos. O preconceito nos envenena.
O filme trata da pobreza. Mas que pobreza? A pobreza na verdade é isto: o não acesso à riqueza das oportunidades, de chances, da verdadeira colocação na sociedade, onde capacitados todos nós possamos passar à LINHA DE PASSE e efetuar o lance “Garrincheano” certo para o gol certeiro. A pia que vive entupida é a metáfora para esta vida que nunca anda, nunca desatola deste lamaçal; dos políticos que mais se preocupam em fazer plásticas e lipo-aspirações em seus rostinhos idiotas para conquistar nossos votos e esquecem-se de efetuar verdadeiras cirurgias corretivas nos bairros e nas VIDAS destas pessoas esquecidas, proporcionando-lhes oportunidades de se tornarem PESSOAS; para poder comprar a chuteira certa, a bolsabonita para presentear a mãe, aprender a dirigir, para enfim, serem donos de seus próprios destinos e pilotarem seus próprios automóveis.
Estas pessoas não querem nossa esmola, não querem nossos favores, querem poder trabalhar, e ganhar por isso; Cleuza não quer parar de trabalhar e ser substituída por outra, mesmo quando grávida; o moto- boy assalta para pedir para ser olhado, ele diz ao “playboy”: “ME OLHA! VOCÊ ESTA ME VENDO? - ela quer que a gente a encare e a inclua, inclua estes seres na vida que nós, como classe média vivemos e mesmo assim tentamos neste mar de lama poder ter acesso e oportunidades. O filme fala da INCLUSÃO. Talvez nós sejamos às suas drogas, enão eles às nossas, os pobres devem ser incluídos e não excluídos, marginalizados, devemos trazer eles para o discurso, para a sociedade e não para a exploração da sua mão de obra barata . A overdose que Dario toma não é de drogas sintéticas oferecidas pelos "mauricinhos ricos", mas sim uma overdose de exclusão.
Está mais do que na hora de isso acontecer ou esta guerra civil em que vivemos provará mais cedo ou mais tarde que nós somos as pedras nos caminhos destas pessoas e talvez como no Rio de Janeiro, iremos nos extinguir, matando-nos. .
Percebam que o argumento central deste filme foi todo feito por um cineasta que como todos sabem é o maior herdeiro de um banco privado deste país.
Poderia ser um filme de direita que tal como a estética “Sebastião Salgado’, explorou a pobreza e fez esta ter ares bonitos em suas fotos.
Mas não; eu saí do filme engasgada, entupida e com vergonha de ser uma pessoa burguesa, que é mais VISTA e OLHADA do que estes homens e mulheres bonitos e tão dignos de nós de serem olhados e encarados de frente por nosso governo. Mas saí da sala de cinema me sentindo tão pouca CIDADÃ como eles. Eles são cidadãos como nós e a garantia de seus lugares na sociedade, para que eles possam fazer o passe certeiro, lhes existe por direito e não por políticas paternalistas de pena e exclusão sociais.
Parabéns ao Prêmio Sandra Corveloni, e parabéns aos que desempenharam os papéis de seus filhos, todos ótimos atores!
Espero ter conseguido "incomodar" você leitor; vá ver o filme e veja se você também não saí deste pensando a respeito da dignidade e pathos do ser humano.
Originalmente os Jogos Olímpicos nasceram em pleno século V a. C., na Grécia , aquela de Homero; constituiram-se como uma importante celebração e tributo aos deuses. A origem dos Jogos Olímpicos na Grécia Antiga é frequentemente associada à celebração do esporte e do culto à beleza estética humana, como se estes fossem seus objetivos principais.
Tudo era espelhado em cânons de beleza áurea, harmonia, simetria e racionalismo. Foi lá que os Renascentistas beberam, depois os Neoclássicos no século XVIII e, hoje a kitsch e mau utilizada arquitetura de decoração de interiores-novo-rica paulista.
Na cidade de Olímpia havia um templo de dimensões magníficas, dedicado a Zeus. Este Zeus era o chamado Zeus Olímpico, e junto a seu templo se realizavam os jogos esportivos idênticos aos das outras cidades. Porém era em Olímpia que os jogos atingiam sua plenitude, em organização e número de participantes, e onde desenvolveram-se como competições regulares e de extrema importância para todos os helênicos – e eram chamados Jogos Olímpicos.
A Olímpia do século XXI é hoje, feita de paredes de água e também de palhas do ninho. Em 2001, com a queda das Torres, foi decretada a falência da arquiteta sólida da argamassa aparente de concreto gótica - agulhada que acima de tudo e todos parecia querer sobrepor-se.
Agora, os arquitetos buscam na organicidade a celebração da potência humana, cada vez mais otimizada em músculos hiper- inflados, maiôs com tecnologia que imitam a pele de tubarões,etc..
Nos jogos olímpicos atuais, a arquitetura quer ser orgânica, podemos ver isto no centro de competições aquáticas, o chamado “Water Cube” ou ainda no “Estádio Nacional”, popularmente conhecido como “Ninho do pássaro”. O Homem-atleta almeja ser cada vez mais superlativo; tornar-se mais máquina, mais veloz, mais aerodinâmico, mais forte e concomitantemente a arquitetura - arte de erigir e edificar ou de projetar e traçar planos mais fluída, com suas formas clássicas dissolvendo-se. É a consagração da desmaterialização da arquitetura.
As paredes inspiram-se em bolhas de água, o uso e utilização da água é totalmente reciclável, a energia captada por células foto- sensíveis torna todo o Cubo auto-suficiente.
No Ninho do pássaro,fícamos sempre a espera de uma gigante ave que ali poderá pousar a qualquer momento à cata de seus filhotes e nos garfar.....
Sou bacharel em Artes Plásticas e Mestre em História da Arte. Leciono para grupos e alunos particulares . Escrevo como uma extensão mais que natural da minha pessoa e compartilho aqui com vocês minhas elocubrações a respeito dos assuntos que me intrigam:arte, cinema, literatura, e as outras menores e não por isso, menos importantes, artes do dia-a-dia de uma paulistana que sou.Uma moça com muitos cachos de bananas, melões e outras frutas: idéias amadurecendo, crescendo, brotando e nascendo novamente; afinal a vida é curta e no fim tudo e todos viramos pó.Portanto, deixai crescer, multiplicar!