sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Literatura de Celular

Por estes dias, uma querida amiga, mandou-me o convite para a Mostra SESC de Artes; dentro deste uma especifica, de Literatura pelo celular; do qual inscrevi-me e há cerca de uma semana venho recebendo short-cuts, pequenos contos, em meu aparelho que alimentam meu dia-a-dia de certa poesia em tom de rima curta. Publico abaixo alguns que me surpreenderam e fizeram aspirar gotícolas do sublime em meu corriqueiro cotidiano:

"Esta tatuagem vai doer?
Só no divórcio." Reinaldo Martins

"Tocou o sax antes de puxar a corda no pescoço. No espelho, o bilhete: aqui jazz." Raimundo Carrero

"Bebeu, chorou, riu, errou, cresceu, amou,feriu, bateu, apanhou. Faria tudo de novo." Pedro Biondi

"Palavra ou mágica? Só uma opção. escolheu. Errado: Não era palavra. Mas escritor sempre opta pela palavra." Moacyr Scliar.

" O enfermeiro estava no elevador com o cadaver na maca. Acabou a luz. Ele acendeu um cigarro e ofereceu ao morto." Marcelo Rubens Paiva

"Mãe, Alice me bateu. Não liga, essa boneca é muito ignorante." Livia Garcia-Roza.

"38mm.
Estourou o céu da boca. Ele escutou a sua prece." Luciana Miranda Pennah

"50 anos
de hoje em diante só faço o que quero. É cedo para isso, disse minha mãe, que nunca se deu ao luxo." Ivana Arruda Leite.

"Amor deles água de barrela: ele gostava do Rimbaud; ela do Rambo." Evandro Affonso Ferreira

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Naranjo em Flor


Nada como recordar um bom e velho tango, que já é quase um cult; minha veia Argentina no momento pulsa pelo sempre caliente e passional "Naranjo em Flor", de 1944, do compositor Homero Expósito, sempre muito bem interpretado por Astor Piazolla e numa versão mais recente pelo grupo Bajofondo Tango Club; abaixo a delicada letra para aqueles que, como eu, gostam de bailar com cravos entre os dentes...


"Naranjo em flor"

Era mas blanda que el agua,
que el agua blanda,
era mas fresca que el rio,
naranjo en floor...

Y en esa calle de estio,
calle perdida,
dejo un pedazo de vida
y se marcho...

Primero hay que saber sufrir,
despues amar, despues partir
y al fin andar sin pensamiento...
Perfume de naranjo en flor,
promesas vanas de un amor
que se escaparon en el viento...

Despues, que importa el despues?
Toda mi vida es el ayer
que me detiene en el pasado,
eterna y vieja juventud
que me ha dejado acobardado
como un pajaro sin luz.

Que le habran hecho mis manos?
Que le habran hecho
para dejarme en el pecho
tanto dolor?

Dolor de vieja arboleda,
cancion de esquina
con un pedazo de vida,
naranjo en flor...

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Morte em Veneza


Revi um clássico da cinematográfica Viscontiana: “Morte em Veneza”. Uma produção apuradíssima e bem tratada em seus mais delicados detalhes.
Visconti filmou como ninguém Thomas Mann, num clássico da literatura em que um compositor alemão viaja para Veneza após recomendações médicas; sua saúde é muito frágil e ele vai ao lindo balneário do Hotel Lido tentar recuperar-se. Mas eis que Gustave, o compositor, “apaixona-se” pelo efebo Tadzio; um menino adolescente que lá encontra-se com suas irmãs e mãe, a linda e estilosa, Silvana Mangano. O filme é maravilhosamente filmado naqueles rápidos closes que só Visconti sabe fazer. O figurino é divino, apaixonei-me por todos aqueles chapéus agigantados e vestidos dos 1900 ; a cidade que esta afundando não poderia ter sido melhor cenário para esta ‘tragédia’. O homem arrebatado pela beleza apolínea do menino semi- Deus. O encontro do compositor com a obra de arte perfeita embalada pelos acordes da 5ª sinfonia de Mahler. É mesmo a definição do sublime.
A beleza de Tadzio atraí e oprime Gustave. Eros e Tanatos, aquilo que o salva ao mesmo tempo vai corroendo-o, sugando suas forças e na metáfora da cidade empesteada pelos ares mediterrâneos, o chamado siroco, Gustave embeveda-se pela beleza de Tadzio que o arrebata e ao mesmo tempo o faz alcançar as esferas do sublime.
Este filme sempre foi tratado como detentor de uma temática homossexual, mas ao meu ver, não é nada disso; muito fácil taxá-lo como tal.... ele é o encontro do homem com a beleza, a beleza da juventude, da perfeição, dos traços andróginos de Tadzio, que lembrou-me muito os rostos das muitas “Monalisas” de Da Vinci, que no fundo, são sempre uma só. Visconti, expõe este cânone, esta perfeição; e o filme trata do arrebatamento, do apaixonamento de nós seres humanos pelo Belo. Afinal o que nos salva ao mesmo tempo nos mata, não? Embriagar-se do belo é também deixar-se dominar, afogar e inundar-se por este. ]
Gustave morre ao final, como o titulo do filme já diz, mas sua morte é asfixiante, sofrida, dolorida, ele deixou-se afogar pelas garras do belo; não o belo narcísico que afoga-se em si mesmo; mas pela descoberta do Belo no fora de nós mesmos e na impossibilidade deste ser possuído, amado e guardado. Enquanto Gustave é frágil, definha e está na meia idade, Tadzio, encontra-se no auge, na puberdade, com sua tez plácida, corpórea como um mármore puro e seus cabelos loiros e vastos - Gustave morre pelo belo. Trata-se do amor platônico, por algo que ele não pode alcançar, tocar mas que o corrompe ao mesmo tempo que seduz
Retiro este magnifíco trecho do original de Thomas Mann:
"Ele era mais bonito do que as palavras podiam exprimir, e Aschenbach (o homem de meia-idade) sentiu dolorosamente, como tantas vezes antes, que a linguagem pode apenas louvar, mas não reproduzir, a beleza que toca os sentidos. (...) Tadzio (o rapaz polaco) sorriu; (...) E recostando-se, com os braços caídos, transbordando de emoção, tremendo repetidamente, segredou a formulação tradicional do desejo - impossível, absurda, abjeta..."
É o encontro do belo ideal, que Gustave buscava alcança em sua arte, que materializa-se na pessoa de Tadzio.
Gustave tenta rejuvenescer, mas a artificialidade perde para o poder do belo angelical, longilíneo, puro e espontâneo. Mas a vida é assim, apaixonamo-nos pelo amor ou pela pessoa amada? A gente se embeveda pelo objeto amado ou pelo enamoramento em si??
O belo e o amor nos encapsulam e nos devoram.

A perfeição o mata.
Este é o arrebatamento maior da vida.

domingo, 7 de setembro de 2008

Linha de Passe



Fui ver “Linha de Passe” de Walter Salles e Daniela Thomas.

De inicio saí reclamando que o filme se pretendia “apologístico” em relação à já de fato conhecida pobreza brasileira em contraponto à vida dos ricos e classe média. Achei que o filme não tinha “história” e perdia em qualidade em relação ao ótimo “Central do Brasil’, do mesmo diretor.

Mas hoje me peguei andando com o cachorro e refletindo sobre o filme.

Uma história simples, a doméstica Cleuza, mãe de quatro filhos ( grávida do 5º), mora na zona periférica de São Paulo. Seus quatro filhos travam verdadeiras batalhas heróicas pela sobrevivência e dignidade no decorrer do filme: O menor, Reginaldo, sonha em conhecer o pai, andando de ônibus delira em pensar que qualquer um dos motoristas destes pode ser o pai . Seu sonho é este: ser motorista de ônibus: outro, Dênis, é moto-boy , enfrenta diariamente aquela luta já conhecida por todos nós destes meninos que correm contra o tempo no trânsito alucinado e colocam suas vidas em risco. Dinho, é evangélico e, Dario sonha em poder ter uma chance de ser jogador de futebol.

Talvez seja isto que não percebi: o filme não tem uma História, pois afinal que história a nossa sociedade brasileira pode oferecer a estas pessoas às margens da sociedade? Que futuro, que oportunidades, que chances? Estes indivíduos são sempre tomados como assaltantes, bandidos, “negros” e seres inferiores. Nós os vemos assim, e assim os tachamos. O preconceito nos envenena.

O filme trata da pobreza. Mas que pobreza? A pobreza na verdade é isto: o não acesso à riqueza das oportunidades, de chances, da verdadeira colocação na sociedade, onde capacitados todos nós possamos passar à LINHA DE PASSE e efetuar o lance “Garrincheano” certo para o gol certeiro. A pia que vive entupida é a metáfora para esta vida que nunca anda, nunca desatola deste lamaçal; dos políticos que mais se preocupam em fazer plásticas e lipo-aspirações em seus rostinhos idiotas para conquistar nossos votos e esquecem-se de efetuar verdadeiras cirurgias corretivas nos bairros e nas VIDAS destas pessoas esquecidas, proporcionando-lhes oportunidades de se tornarem PESSOAS; para poder comprar a chuteira certa, a bolsa bonita para presentear a mãe, aprender a dirigir, para enfim, serem donos de seus próprios destinos e pilotarem seus próprios automóveis.

Estas pessoas não querem nossa esmola, não querem nossos favores, querem poder trabalhar, e ganhar por isso; Cleuza não quer parar de trabalhar e ser substituída por outra, mesmo quando grávida; o moto- boy assalta para pedir para ser olhado, ele diz ao “playboy”: “ME OLHA! VOCÊ ESTA ME VENDO? - ela quer que a gente a encare e a inclua, inclua estes seres na vida que nós, como classe média vivemos e mesmo assim tentamos neste mar de lama poder ter acesso e oportunidades. O filme fala da INCLUSÃO. Talvez nós sejamos às suas drogas, e não eles às nossas, os pobres devem ser incluídos e não excluídos, marginalizados, devemos trazer eles para o discurso, para a sociedade e não para a exploração da sua mão de obra barata . A overdose que Dario toma não é de drogas sintéticas oferecidas pelos "mauricinhos ricos", mas sim uma overdose de exclusão.

Está mais do que na hora de isso acontecer ou esta guerra civil em que vivemos provará mais cedo ou mais tarde que nós somos as pedras nos caminhos destas pessoas e talvez como no Rio de Janeiro, iremos nos extinguir, matando-nos. .

Percebam que o argumento central deste filme foi todo feito por um cineasta que como todos sabem é o maior herdeiro de um banco privado deste país.

Poderia ser um filme de direita que tal como a estética “Sebastião Salgado’, explorou a pobreza e fez esta ter ares bonitos em suas fotos.

Mas não; eu saí do filme engasgada, entupida e com vergonha de ser uma pessoa burguesa, que é mais VISTA e OLHADA do que estes homens e mulheres bonitos e tão dignos de nós de serem olhados e encarados de frente por nosso governo. Mas saí da sala de cinema me sentindo tão pouca CIDADÃ como eles. Eles são cidadãos como nós e a garantia de seus lugares na sociedade, para que eles possam fazer o passe certeiro, lhes existe por direito e não por políticas paternalistas de pena e exclusão sociais.

Parabéns ao Prêmio Sandra Corveloni, e parabéns aos que desempenharam os papéis de seus filhos, todos ótimos atores!

Espero ter conseguido "incomodar" você leitor; vá ver o filme e veja se você também não saí deste pensando a respeito da dignidade e pathos do ser humano.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

A Nova Olímpia




Originalmente os Jogos Olímpicos nasceram em pleno século V a. C., na Grécia , aquela de Homero; constituiram-se como uma importante celebração e tributo aos deuses. A origem dos Jogos Olímpicos na Grécia Antiga é frequentemente associada à celebração do esporte e do culto à beleza estética humana, como se estes fossem seus objetivos principais.

Tudo era espelhado em cânons de beleza áurea, harmonia, simetria e racionalismo. Foi lá que os Renascentistas beberam, depois os Neoclássicos no século XVIII e, hoje a kitsch e mau utilizada arquitetura de decoração de interiores-novo-rica paulista.

Na cidade de Olímpia havia um templo de dimensões magníficas, dedicado a Zeus. Este Zeus era o chamado Zeus Olímpico, e junto a seu templo se realizavam os jogos esportivos idênticos aos das outras cidades. Porém era em Olímpia que os jogos atingiam sua plenitude, em organização e número de participantes, e onde desenvolveram-se como competições regulares e de extrema importância para todos os helênicos – e eram chamados Jogos Olímpicos.

A Olímpia do século XXI é hoje, feita de paredes de água e também de palhas do ninho. Em 2001, com a queda das Torres, foi decretada a falência da arquiteta sólida da argamassa aparente de concreto gótica - agulhada que acima de tudo e todos parecia querer sobrepor-se.

Agora, os arquitetos buscam na organicidade a celebração da potência humana, cada vez mais otimizada em músculos hiper- inflados, maiôs com tecnologia que imitam a pele de tubarões,etc..

Nos jogos olímpicos atuais, a arquitetura quer ser orgânica, podemos ver isto no centro de competições aquáticas, o chamado “Water Cube” ou ainda no “Estádio Nacional”, popularmente conhecido como “Ninho do pássaro”. O Homem-atleta almeja ser cada vez mais superlativo; tornar-se mais máquina, mais veloz, mais aerodinâmico, mais forte e concomitantemente a arquitetura - arte de erigir e edificar ou de projetar e traçar planos mais fluída, com suas formas clássicas dissolvendo-se. É a consagração da desmaterialização da arquitetura.

As paredes inspiram-se em bolhas de água, o uso e utilização da água é totalmente reciclável, a energia captada por células foto- sensíveis torna todo o Cubo auto-suficiente.

No Ninho do pássaro,fícamos sempre a espera de uma gigante ave que ali poderá pousar a qualquer momento à cata de seus filhotes e nos garfar.....

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Embutir-se


Ela acordou com um tersol do tamanho de um asteróide no olho. Saiu para passear com o cão e pisou num coco de outro. A reunião que tinha marcada para depois do almoço foi cancelada.Saiu na rua e caiu coco de passarinho na sua bochecha.

Mon dieu!!!!

Quem mandou uruca-pensou ela. Melhor não ter acordado? Melhor não ter saído de casa? Melhor não ter vivido?

Ela estava cansada das pessoas, se entediava com os homens que a paqueravam e aqueles outros com os quais relacionava-se; o papo já não tinha graça e descobria que viver sem sexo podia ser algo viável após conversar com uma colega que já tinha desistido deste há algum tempo e, como ela tinha preferido diluir-se nos livros e seus meandros ou nos ótimos filmes da televisão a cabo.

Neste final de semana ela se esbugalhou em lágrimas vendo um então jovem Dustin Hoffman e seu pequenino filho perceberem que podiam viver sem ‘a mãe’ no já cult “Kramer X Kramer” ; ou então uma Shirley Mac Laine que nos já idos anos 70 tinha que lidar com a ‘moderna’ cabeça dos homens (entenda-se por este Jack Nicholson), que não querem assumir compromissos, enquanto ela, sozinha vê sua filha definhar pelo câncer em “Laços de Ternura”.

Ela chorou e chorou. Não sabia mais se chorava pelas lágrimas de Dustin, de Shirley ou pelas suas mesmo.

Estava cansada da batalha diária, do ter que matar leões e dragões, pagar contas, pegar trânsito, procurar ‘aquele’ homem que resolveria sua atual solteirice.

Afinal resolver o que? Não havia nada para ser resolvido, não existiam problemas, portanto não haviam soluções para buscar;nada para ser purgado.

Mas como bem havia dito um amigo seu: “Quando a gente se cansa é bom sinal, podemos operar mudanças em nossas vidas”...será?- Ela arguiu para si mesma.

Mas, aí que preguiça...de querer mudar o mundo dentro de si mesma.

Viu-se como a personagem de Chabrol (outro filme do então "filmíco" final de semana que havia tido), em “Uma garota dividida em dois”:a lâmina que a cortava,pungindo-a, distonando e entonando-a.

Tudo a levava para longe da vida dos ‘normais’, dos casados, com filhos, com namorados, da vida comportada.

Não era isso que ela buscava agora e nunca havia sido , "aí que chatice"- pensou.

Que vontade de ir para o Camboja de moto. Easy Ryder. Sozinha, sentindo o vento lambendo sua face...

Melhor comprar a passagem de avião,mas não tinha dinheiro.

Melhor ficar quieta na sua com seus novos livros que comprou.

Embutir-se.

Encolher-se tal como "Alice no País das Maravilhas" (aliás, por onde andam vocês maravilhas? - novamente pensou ela com seus botões),tomar a poção mágica e Pá- Pum: Arrivederti !

Me esqueçam por um tempo - ela pensou ."Estou de férias de você, mundo e de vocês, pessoas"- disse em voz alta,querendo convencer-se.

"Por favor, não disturbam."

Foi para o Camboja, com o Proust e a Sontag debaixo

dos braços.

domingo, 27 de julho de 2008

HAMLET


Ontem fui no teatro da FAAP aqui em SP ver a excelente montagem de “Hamlet”, de William Shakespeare, pelo dramaturgo Aderbal Freire Filho com Wagner Moura no papel título.

Bom, a tragédia é aquela famosa de Shakespeare; transcorre no castelo de Elsinore, na Dinamarca, onde podemos observar este príncipe e seus conflitos, angustias, ambigüidades; o surgimento da racionalidade e da loucura, da culpa, do ódio e dos sentimentos inconscientes que anteciparam em muito a psicologia freudiana estão todos lá, e, como já disse o critico literário Harold Bloom, em Shakespeare ocorre, em pleno século XVII, "a invenção do humano" e todos seus conflitos e angustias. Aderbal, conseguiu transpor esta famosa peça para os dias atuais, um texto que só auxilia por sua atemporalidade; sempre achei Shakespeare em suas tragédias de uma qualidade arquetípica e avassaladoramente completo , posto que ele fala de sentimentos comuns a todo e qualquer ser humano tais como traição, amor, ódio, ganância, etc.

A montagem é excepcional, a coxia é aberta e trazida às laterais do cenário central , portanto os atores que não estão “em cena” ficam alí, à direita ou esquerda do palco, os vemos beber água, trocar de roupas. As máscaras são retiradas e o “mise em scéne” todo passa a incluir os bastidores e vemos alí o ator desnudado que ao projetar-se para a frente transmuta-se se em personagem. O humano transformado em demasiado humano....Percebemos , de repente, no canto um príncipe Hamlet que é o ator Wagner Moura enxugando a transpiração, ajustando a blusa; portanto tudo é humanizado e nada endeusado ou fetichizado. A encenação é toda em tom coloquial. Tornam-se todos,eu novamente recorrendo à Nietzsche, demasiados humanos . Há também um dado que apreciei muito e me recordou o cineasta Peter Greenaway e suas montagens teatrais e/ ou cinematográficas em que este faz uso de várias linguagens: o teatro que interpenetra-se com o cinema, com o livro,a fotografia- a interdisciplinaridade das linguagens. Há nesta montagem uma câmera de filmagem P/B que vai e vem da mão dos atores em certos momentos pungentes da peça,quando estes a utilizam para filmar seus companheiros, simbolizando um close nas ações e emoções, ou seja no desmascaramento do inconsciente velado; a dor, a traição desnudam-se nesta câmera que em closes nas feições dos atores dialoga ao mesmo tempo com suas encenações; suas ações são substantivadas, catapultadas, engrandecem-se. Esta câmera é o olho que tudo registra e que nada perde e serve certa hora, a pedido do príncipe Hamlet, como prova documental das feições do rei Cláudio quando este manifesta expressivamente vendo a peça encenada pelos atores e caí em falácia pela traições do trono da Dinamarca. Interessante a metalinguagem ao se utilizar o teatro, para revelar a verdade,fazendo isto através de uma peça, ou ainda a metalinguagem de Aderbal ao usar o cinematográfico para potencializar a dramaturgia. A câmera de filmagem PB como lente de aumento das sensações dos atores.

Os tênues limites entre a realidade e a ficção na revelação dos também tênues limites entre o que é o SER e o não SER deste príncipe que utiliza-se de um falso disfarce de louco para revelar a loucura dos outros; também aqui o “confusionismo” entre loucura e sanidade faz-se claro.E explorar seus limites livre de preconceitos é de uma grandiosidade.

Alguns atores têm excelente desempenho, Gillray Coutinho como Polônio, pai de Ofélia, revela um homem inquieto tomado por tiques nervosos e tem uma expressão corporal excelente o que auxilia ainda mais na composição deste personagem retórico e hilário. São alguns sutis momentos cômicos na obra de Shakespeare que manifestam-se.

Ofélia, vivida por Georgiana Góes esta na medida certa, a jovem virgem apaixonada pelo príncipe que enlouquece; vale atentar para seu vestido branco cheio de babados que na verdade são feitos de camisas. Sua atuação é sutil delicada e precisa na composição da frágil personagem .

Wagner Moura esta maravilhoso. Assustei-me com sua precisa empostação de voz, em que seu sotaque baiano perde-se e revela um trabalho de colocação de voz e expressão corporal bárbaros. O ator faz uma verdadeira maratona(ele deve perder uns bons kilos por encenação...), no decorrer da peça: pula, gesticula do alto à baixo de seus limites, sua atuação é 360 graus, revela, pois a grandeza deste homem barroco que ia da luz à escuridão, da racionalidade ao instinto, do céu à terra, desnudando, portanto todos os podres da Dinamarca, desde seus fétidos fedores na guerra do poder em que tudo é valido até as singelas delicadezas de um homem que busca a verdade e tantas outras coisas para além daquelas simples do que sonha nossa vã filosofia.

O figurino, de Marcelo Pies, é calcado em roupas da Osklen, exibe toda uma homogeneidade em tons pastéis e o fato de Hamlet e seus contemporâneos usarem moletons e tênis apenas engrandece a atemporalidade e gransiosodade da peça e a percepção de Aderbal na montagem atual. Os casacos são maravilhosos, assim como os vestidos de um vermelho sangue da rainha Gertrudes ou os brancos picotados , manchados e desbotados de Ofélia.

Embasbaquei-me. E o resto é silencio....





Abaixo o serviço da peça:

HAMLET

De William Shakespeare

Tradução de Aderbal Freire-Filho com Barbara Harrington e Wagner Moura

Direção de Aderbal Freire-Filho

Com Wagner Moura, Tonico Pereira, Carla Ribas, Georgiana Góes, Caio Junqueira, Cláudio Mendes, Fábio Lago, Felipe Koury, Gillray Coutinho e Marcelo Flores

Cenário: Fernando Mello da Costa e Rostand Albuquerque

Iluminação: Maneco Quinderé

Figurinos: Marcelo Pies

Trilha Sonora: Rodrigo Amarante

Produção Executiva: Nil Caniné
Direção de Produção: Sérgio Martins
Realização: Sérgio Martins & Wagner Moura

____________

Até 28 de setembro

Teatro Faap

Duração: 170 minutos (com intervalo de 15 minutos)

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Encontro com o Tempo Perdido


Acabei de ler, por estes dias, o primeiro volume, de um total de sete, da clássica obra de Marcel Proust, "Em Busca do Tempo Perdido", ( Em busca de Swan-volume 1- tradução de Mario Quintana- editora Globo); coloquei-me este delicioso desafio , de ler esta obra completa composta de quase 4.000 páginas nesta altura de meus balzaquianos anos. E, recomendo, é sublime sua escrita, uma constante oscilação entre o sonho, o delírio e interantíssimas relações entre o tempo do acontecer das coisas e o de seu recordar; uma apologia à descrição delicada e rica das maneiras, das pessoas, das paisagens. Proust nos diz que cada ser humano ocupa um papel mínimo no espaço e no tempo mas, mesmo assim, estamos no topo de um prédio de memórias pessoais e coletivas que nos torna gigantes; portanto toda e qualquer experiência de vida torna-se, à sua vista, riquíssima e merecedora de ser narrada. Como ele mesmo diz " Os lugares que conhecemos não pertencem tampouco ao mundo do espaço, onde os situamos para maior facilidade.... a recordação de certa imagem não é senão a saudade de certo instante; e as casas, os caminhos, a avenidas são fugitivos, infelizmente, como os anos."
Para mim que trabalho com artes plásticas, achei valiosissima esta colocação sobre o tempo e espaço, estes são apenas abstrações, parâmentos criados pela sociedade, mas, precisamente as coisas apenas acontecem no tempo e espaço de nossas mentes e apenas em nossas memórias vivem, vive-las no real é especializar estas , tornando-as dimensionáveis e palpáveis. Proust como um completo escritor que foi compartilha conosco suas riquíssimas memórias pessoais e coletivas

Bom, agora vou comprar o segundo volume, pois a viagem em busca do tempo perdido não pode parar.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

O Escafandro e a Borboleta


A vida vista apenas pelo olho esquerdo.

É assim que começa o filme “O escafandro e a borboleta’ do excelente artista plástico e diretor de cinema Julian Schnabel (fez outros dois ótimos filmes “Before the night falls” e “Basquiat”).

Um filme baseado em fatos reais, na vida do editor da revista Elle Jean-Dominique Bauby, na época com então 40 e poucos anos ( a história se passa em 1995), pai de familia, que sofre um derrame cerebral e apenas através de seu olho esquerdo consegue comunicar-se com o mundo exterior. Os primeiros 20 minutos iniciais do filme são todos filmados do ponto de vista do protagonista, a câmera encontra-se literalmente em seu olho, percebemos e somos seu olho, e passamos a nos identificar com esta personagem que passa a comunicar-se com o mundo através de piscadas . Seu ponto de fuga é este, restrito.Vemos através de seu embaçamento, de seus piscares,(lembrei-me agora do filme “Quero ser John Malcovitch”, em que uma personagem entra dentro da cabeça do citado ator e passa a ver de dentro de sua cabeça também...), e como o próprio personagem diz agora o que lhe resta do mundo são sua memória e sua imaginação, ou, do contrário, entregar-se à morte.

Seu olho é sua pena, ele soletra, letra por letra, demorada e pacientemente a sua vida, e esta é a matéria de seu livro autobiográfico,que originou o filme. O filme é, portanto,regido por esta metalinguagem.

O interessante deste filme é que ele nos coloca no tempo contemplativo deste homem imobilizado, o tempo da espera, do devir, onde todo e qualquer esforço é dificílimo, e cada letra tão cheia de pensamentos completos e imagens risíveis.

Bauby, sonha, imagina, mas na vida real , ficou quase um ano vivendo nesta condição, ditando sua vida e memórias.

Muito louco pensar esta vida no tempo da simultaneidade, do celular, da comunicação em massa, da internet. Mundo este em que o silêncio não é possível, a imobilidade muito menos e talvez até mesmo a imaginação fértil.

O filme me fez pensar no poder da imaginação. Hoje imaginamos cada vez menos, a mídia e o mundo do consumo nos ditam o que e de que forma fazer isto ou aquilo. Não nos debruçamos mais para escrever, não debatemos mais nossos sonhos, não desenhamos ou criamos mais. Para onde foi nossa mente imaginativa e criativa??

Onde mora o poder do sonho e da fantasia que tudo pode?

As máquinas contemporâneas nos tornaram seus escravos e nossas mentes criativas embalsamaram-se; não vejo hoje mais as pessoas criando,debruçando-se sobre o delírio e serem tomadas por surtos criativos, elas apenas consomem e sentem-se vazias. Visto que podem fazer tudo isto mexendo todos os órgãos de seus corpos, tão empobrecidos, utilizados apenas para o mercado. Bauby com apenas um órgão expressivo cria mundos infinitos e reergue-se como ser humano.

O filme é todo tátil, cheio de texturas riquíssimas, onde simples imagens de cabelo ao vento podem tornar-se tufões da natureza. 0 horizonte do ponto de vista de Bauby é outro, suas paisagens são outras. Tudo passa a ser relativizados e potencializado ou diminuído a partir da nova condição deste personagem. Ele não se deixa afundar pelo peso do escafandro de ferro mas liberta-se nas asas da borboleta. Sente-se como um escafandrista preso e incomunicável no fundo do mar, mas quando imagina, sua mente corre solta tal como uma borboleta desencasulada. O filme oscila entre o vai e vem de seus flaskbacks e os delírios imaginativos de seu incansável cérebro.

Através de suas lembranças e delírios,o peso de seu corpo ganha asas e ele pode voar.

Bom ver filmes inteligentes e não politicamente corretos em que ficamos sentido pena do protagonista enclausurado em sua deficiência. Palmas para Schnabel.

Ou melhor, um bater de asas, de borboleta, claro!

terça-feira, 8 de julho de 2008

Objeto transitório para uso humano






Fui hoje ver a relacional exposição da artista iugoslava Marina Abramovic. Sai de lá estarrecida e completamente deslocada. Mas creio que a boa arte faz isto: nos desloca e nos joga noutro universo: trata-se de uma mostra totalmente relacional em que somos obrigados a participar, vivenciar todas as obras ali vivas. Marina, nascida em Belgrado em1946, desenvolveu ao longo destes anos obras performáticas (muitas delas em parceria com seu namorado nos anos 80, Ulay; cúmplice em muitas de suas obras que articulam no limite do corpo); o casal troca numa destas tapas na cara um do outro , noutra "Expanding in space", o corpo pela sua expansão no espaço desloca e move paredes; noutra ainda, facas dançam em torno dos dedos de suas mãos-, um trabalho que articula nos limites tão tênues da vida e da morte, da arte e a aberração; em muitas delas a artista saiu carregada por médicos ou foi retirada por uma ambulância no limite da exaustão. Em 2002 numa Galeria em NY permaneceu 12 dias num período de 8 horas diárias, nua e sem comida ou água; defecando e vivendo 'normalmente' dentro desta. Outra vez, 16 horas imóvel amarrada pelo cabelo ao seu namorado . Marina dialoga no limite do corpo, na duração real da experiência, ela torna-se a sua própria obra e o devir de seu trabalho dá-se , realiza-se na vivência da própria artista no viver e exaurir-se neste. A matéria moldável de seus trabalho é seu próprio corpo, sem piedade nenhuma, sodomizado, cortado, batido, etc. O limite do quanto este suporta e dos níveis daquilo entre o fazer e não fazer nada; a mobilidade e imobilidade, o contemplar e o agir.Em todos os trabalhos presentes na mostra atual nós, o público interagimos com peças compostas de ferro,alumínio, imãs, luz neon, cobre oxidado, camomila, pedras brutas , tais como ametistas, quartzo rosa e lápis-lazúli. Materiais que armazenam e trocam energia. As obras nos despertam sensações sutis através de movimentos de energia; ativam chacras, nos estimulam por meio de cheiros e luzes- trata-se de uma mostra relacional e sinestésica, para todos os nossos sentidos .
Explorando os limites físicos e mentais de seu ser, Marina, ao longo de sua carreira, suportou a dor, a exaustão e o perigo, na busca da transformação emocional e espiritual, com performances, som, fotografia, vídeo, escultura. Seu trabalho figura em numerosas coleções públicas e privadas, além de contar com participações nas mais renomadas mostras de arte internacionais.

Temos de viver estas em 10 minutos, noutras vezes, por uma ou até 3 horas. Devemos interromper nossa vida cotidiana e nos dedicar a entrar no tempo do fruir de suas obras relacionais. Claro que hoje não pude interromper meu dia habitual de trabalho e passar o dia na galeria, mas pretendo fazer isto e mergulhar na vivencia de cada uma nalgumas idas à Galeria.
Vale lembrar que o que Marina nos pede não é fácil, e que esta tornou-se ao longo do tempo Budista. Difícil a gente conseguir se desvincular do nosso tempo e rotinas e nos despreendermos da vida corriqueira para entrar no tempo de sua obra. As peças são tão convidativas, algumas delas até mesmo lúdicas. A exposição está em cartaz até dia 2 de Agosto, aqui em São Paulo na Galeria Brito Cimino, na Vila Olímpia, maiores informações no link da galeria : http://www.britocimino.com.br/

Aqui algumas performances de Marina que podemos ver no Youtube:

http://www.youtube.com/watch?v=pno1gCrbeVk

http://www.youtube.com/watch?v=PD41IRukna8

http://www.youtube.com/watch?v=h9-HVwEbdCo

http://www.youtube.com/watch?v=mUz5rnxQmfI&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=sjdLUmFwiFg&feature=related

Aproveitem a dica e lembrem-se "Art must be beautiful......"